Impostômetro de Inhambupe

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sexta-feira, 20 de março de 2015

Inhambupe na visão de um americano no ano de 1959

Recebi há alguns dias,  uma cópia de um trecho de um livro que foi feito no ano de 1959, onde se falava de Inhambupe nessa época, o livro tem o titulo "Uma experiência Pioneira", no qual foi um relatório da Universidade de New York em conjunto com a Universidade da Bahia, onde Gordon L. Burgett da Universidade de Illionois esteve em Inhambupe a convite de Seu Antenor, veja abaixo o que o norte americano falou sobre nossa cidade naquele ano.

"Sento-me no ônibus, silenciosamente. João senta-se a meu lado. Outros entram, oferecem um fraco “bom dia”. Andam às apalpadelas, procurando um assento vazio. São cinco horas da madrugada.
                Não verei mais Inhambupe. Este velho ônibus – único da cidade – sairá de noite e chegará, depois duma hora tortuosa, em Alagoinhas de dia, e daí vinte e seis calados passageiros entrarão no trem elétrico para a Bahia. Vinte são estudantes.

                Bahia – Inhambupe. Outros mundos. Lembro-me bem desta cidade. Cheguei há três dias para visitar a família dum bom amigo. Cheguei sem ideia formulada da cidade.
                São coisas menos importante que me lembro. Ali, em frente a este ônibus e escondida pela escuridão, fica a igreja. Está no Centro da cidade... velha, grande, azul por dentro e pardacente fora. Lá o padre fez um casamento ontem, sem muita gente ou muita importância, e quando a cerimônia acabou, o casal voltou para casa.
                A feira acabou há três dias. Uma feira duma cidade cabocla, do interior da Bahia. Pretas velhas sentadas na rua de pedra, vendendo frutas; um caboclo – alto e magro – com fumo cru para trocar... uma menina de saltos altos e todos os descalços virando-se para ver... três ciganos tentando vender duas cabras mal-alimentadas... um barbeiro ambulante dando estalos com a tesoura no ar... e assim, até à noite. A cidade espera a feira bi-semanal para momentaneamente matar o fastio.

                Falta alguma coisa: a prefeitura. Tinha anos, muitos anos, muitos anos e ficou sem futuro nem mobília. Passando perto, vemos a “polícia” – uma criança de três anos, nua com o chapéu policial caindo sobre os olhos. A pouca distância três pretos prisioneiros sentando-se nas duas grandes janelas barradas do Xadres. Um cantando as mesmas quatro notas; os dois outros conversando com as pessoas da rua.

                Chegou a noite, de repente. Voltado no escuro às 5:40, ficamos batendo um papo até às seis, a hora mágica quando a Companhia Elétrica de Inhambupe e Paulo Afonso acendem a luz.
                A sorveteria começou a fazer o sorvete para o próximo dia, porém com pressa. A energia se apaga às onze! O cinema ligou a máquina para uma prova, rádios começaram a tocar, e um velho experimentou seu novo aparelho elétrico de barbear...
                Também o jornal, rádio comum, e o coração da cidade começaram com a energia. “You, You, You”, as notícias, e o hino nacional – as quatro horas do alto-falante começaram. Muita propaganda e poucas notícias: “americano visitando Inhambupe; enchente em Senhor do Bomfim; não haverá aula de geografia amanhã. Etc.”
                Com o filme começando às oito, fomos para o esporte da cidade – passeio. É verdade que todos vão a Praça uma vez cada noite, isto é, todos os que podem andar ou respirar. Geralmente os casais se sentam, os rapazes muitas vezes andam numa direção e as moças na direção contrária. As vezes andam juntos. E quando Fulano segura a mão de Maria, todo mundo sabe, e comenta.
                O filme. Nem posso lembrar-me agora, só dois dias depois. Um abacaxi nacional. Com “O Grande Otelo”. O Cinema encheu-se de crianças. É uma garagem de um homem que vendeu o carro ou lhe sobreviveu. A tela, dois lençóis costurado; a maioria trouxe cadeiras consigo.
                A porta fechou. Escuridão. “O HOMEM MORCEGO, SÉRIE 18”... uma gritaria que abafou tudo, até o alto-falante, seguido por silêncio infantil. “Morcego”, o herói de televisão em outros países, mais uma vez salvou uma porção de damas (vestidas à moda de 1939), protegeu Robin, defendeu seu país contra espiões da “Terceira Força”, e resolveu tudo exceto o crime, deixando isso – como promessa – para a próxima série! Trailer. As crianças saíram para brincar na rua, mas os “veteranos” ficaram. Silêncio reinou durante os oitenta minutos do abacaxi. E nem uma queixa depois!
                Logo depois voltamos para casa e dormimos. Poucos minutos depois a luz se apagou, e a noite surgiu em Inhambupe, uma noite tão escura e tão quieta que mesmo os fantasmas lá devem sentir-se bem sozinhos...
****
                - Quer ver nossa Cachoeira?
                - Quero. Está perto?
                - Pouca distância. Vamos depois do café...
                - Ótimo, vamos...
                - E fomos. E fomos, e andamos, e andamos... acompanhado por nosso amigo, Senhor Sol. Saímos da cidade cedo. Da Praça passamos à Igreja e uma pequena fábrica de cachaça e vinagre, atravessamos a parte mais pobre, e saímos pela única rua, aquela ligação com a “civilização”, com Alagoinhas. Passamos favelas, um terreiro de candomblé, e campo.
                O Sol queimava. O fumo dominava a paisagem, só perdendo seu trono para as palmeiras. Ruminando, prestando pouca atenção, o gado continuava sua vida pacifica, e cuta.
                -- Pouco mais e estamos lá...
                João sugeriu que nós parássemos para tomar água. Paramos. A preta riu, quase com vergonha. Ela chamou João de doutor!... hum, estudante “doutor”. Voltando para o único quarto da cabana, ela apareceu de novo com os três copos da casa e água numa cabaça decorada. Bebemos e agradecemos. E ela nos agradeceu pela visita!
                A senda diminuía; o sol queimava. Andamos e conversamos, e para esquecer ou enganar, cantamos.
                - Estamos entrando na fazenda e dentro em pouco tempo estaremos lá.
                A diplomacia falou em vez do cansaço. – Está bom. Estou gostando, João. É muito interessante, não é? (Graças a Deus que as palavras saem da boca em vez dos pés!)
                Saltamos uma porteira grande. Aproximamos-nos da estancia, um cão – sem a típica hospitalidade brasileira – espiou-nos e acercou-se-nos, latindo entre dentes fechados. Corremos como o diabo, saltando a porteira. Ficamos em cima, o cachorro em baixo. Só ele “falou”.
                - Não tenham medo. Venham, venham cá, ele não morde – Alto, queimado, um vaqueiro nos convidou a entrar na fazenda. Entramos devagarzinho, esperando que o cachorro ouvisse o homem.
                - João, como vai? Está passeando?
                João explicou e apresentou todos. Entramos em casa e ele mandou a mulher trazer água. Procurou cadeiras. Sentamos todos. A casa estava quase vazia: uma mesa, folhinha, couro para a sela, e uma Bíblia, aberta na mesa. Nós o interrompemos. A esposa troxe água, como sempre, nos melhores copos, e com desculpas para o “doutor” e seus amigos! Ele falou, com palavras bem escolhidas, um homem triste e quixotesco de aparência.
                Fomos embora, com a ajuda daquele maldito cachorro, ainda “palestrando”.
                (Falando misteriosamente, João me confiou que aquele homem era protestante, e que lia a Bíblia!)
                - Olhe lá, - ele disse mais tarde, - uma árvore que nós cortamos e usamos para Natal. Se chama “Barba de Bruxa”. Não parece?
                Parecia. Nós Chamamos isto “weeping willow”.
                Descemos uma ladeira. Saltamos um riacho. A vegetação de repente cresceu e cobriu tudo – tudo verde e tudo mole. Entramos no mato.
                - Pouca distância. Espero que você goste...
                Esperei também. Ele dissera que a cachoeira tinha bastante altura e força. Deve ser pelo o menos interessante.
                Tudo se tornou mais verde, mais escuro, mais mole – e, pensei eu, sem dúvida mais venenoso. Lama! Tiramos os sapatos!
                - Chegamos!
                Puxa! Aquela enorme cachoeira tinha uma altura de dois metros!
                - Ó João, vocês não tem medo de nadar aqui?
                Todos sorriram felizes. – Tire a roupa, vamos mostrar...
                Tirei. Entramos na água, água azul e fresca. Senti-me  tão bem, molhei a cabeça, deixei o rosto na água, atirei água nas costas... tão bom depois daquele sol. Brincamos. Atiramos água e jogamos os jovens na água profunda. Estacionei-me em baixo da cachoeira, deixando a água cair sobre os ombros e correr no cabelo. Fiquei tão feliz neste conforto completo e merecido.
                O verde cobria as orlas do riacho, com as pedras vermelhas formando o leito. O Senhor Sol, inimigo, repentino, espreitava entre os ramos das árvores gigantesca. As aves cantavam o bosque zunia, e a água, fresca e cintilante, caía sobre os ombros e partia o cabelo.
                Saímos cedo demais. Cantamos, brincamos, descansamos muito. A preta nos esperou com água, e mais uma vez nos agradeceu a visita. Vimos a cidade de longe – limpa e branca contra o fundo verde e vermelho, com a Igreja brilhante e nova e sua vizinhança de casas todas novas pintadas.
                Voltamos para Alagoinhas, para a Bahia, e eu – muito mais tarde – para os Estados Unidos.
                Lembro-me agora desta cidade aqui mesmo, banhado pela escuridão da noite preta e muda... daquela cachoeira tão refrescante e tão alta, da simplicidade e felicidade daquele povo.

                Gostei de Inhambupe. Que paraíso seria misturar as qualidade dela com o conforto dos Estados Unidos. Mas estou sonhando. A vida não é assim".