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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ponto final da ditadura militar no Brasil, eleição de Tancredo completa 30 anos

Tancredo Neves discursa logo após ser eleito pelo Colégio Eleitoral

Em reduto obediente aos militares, o mineiro venceu Maluf em uma disputa indireta que marcaria o fim do comando militar

Os ventos da mudança começaram a soprar às 12h25, quando emissoras de rádio, televisão e as agências de notícia – com seus extintos e barulhentos aparelhos de telex – começaram a disparar os detalhes do acontecimento mais esperado das últimas duas décadas: o ex-governador de Minas, o civil Tancredo Neves, da Aliança Democrática, fora eleito naquele instante o novo presidente do Brasil, vencendo o candidato do PDS, deputado Paulo Maluf, por uma diferença de 300 votos.
Foram apenas 660 votos válidos e 26 abstenções. O suficiente, em um Colégio Eleitoral até então obediente aos generais de plantão, para tornar o 15 de janeiro de 1985 o marco histórico que encerraria o ciclo militar iniciado em 1964, abrindo caminho para a esperada redemocratização. Um Congresso ainda amedrontado comemoraria discretamente, com aplausos e poucos gritos de “viva a democracia!”, a primeira grande vitória depois de 21 anos de ditadura e mordaça. Era um acontecimento político de vulto.
O Brasil de 30 anos depois deve muito à genialidade política do mineiro Tancredo Neves que, mesmo atuando com casuísmo nos bastidores do regime quando a emenda Dante de Oliveira ainda era uma esperança, fez a costura política que permitiu – sem tiros nem rupturas, como dita o jeitinho brasileiro – a troca da ditadura por um regime de liberdade política tão ampla que até a extrema direita hoje tem o direito de berrar nas ruas pela volta dos militares.
Fortalecido pela campanha das Diretas Já e aceito pela caserna para cumprir a transição sem ameaças, Tancredo venceu Maluf facilmente, mas perderia para a doença que três meses depois o matou, sem deixar que assumisse a presidência. Resultado dos compromissos feitos em campanha, seu vice, José Sarney, convocaria a Assembleia Nacional Constituinte e eleições diretas para todos os níveis de poder. Sob a luz de uma nova Constituição, em 1988, o país começaria a se livrar do entulho autoritário.
Um dos maiores legados de Tancredo, com o que concordam os historiadores, foi ter dado início ao pacto que afastou os militares do poder pelo mais longo período da história republicana e promoveu o reencontro do Brasil com a democracia. Trinta anos depois, com seus erros e acertos, a democracia exorcizou de tal forma os fantasmas golpistas que as manifestações atuais pareceriam à época pura ficção. Para se ter uma ideia do contraste, durante todo o governo do último general a ocupar o Palácio do Planalto, João Figueiredo, a linha dura militar tentou evitar a abertura promovendo dezenas de atentados à bomba.
A eleição de Tancredo pôs fim às conspirações e deu musculatura para a transição segura, num momento em que as feridas da luta armada ainda não haviam cicatrizado. Mas a volta da democracia foi, a bem da verdade histórica, concessão dos generais e custou barato para um regime que prendeu milhares de opositores, torturou, expulsou e assassinou outras centenas. Naquelas circunstâncias era, no entanto, a conquista possível na obra de engenharia política arquitetada por Tancredo Neves.
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O Brasil era à época um país muito diferente, quase irreconhecível às vistas das atuais gerações. A censura, inicialmente aceita com condescendência pela elite iludida com a intenção dos militares e, depois, imposta na marra, alienou gerações e impediu que o país tomasse conhecimento do que foram os horrores dos anos de chumbo. O relato oficial do período e dos crimes praticados foi resgatado e divulgado só agora, no final do ano passado, pela Comissão Nacional da Verdade.
A primeira tarefa do governo de transição foi derrubar a censura, os famigerados atos institucionais e a Lei de Segurança Nacional, extinguir o sistema de espionagem política instalado no Serviço Nacional de Informação (SNI) – hoje Abin –, acabar com os pacotes econômicos que eram empurrados goela abaixo com o amparo de um Congresso subserviente e substituir o aparato militar incrustrado no governo havia 21 anos. As providências adotadas por Sarney constavam do programa de governo do titular da chapa ao pregar país afora a instituição da Nova República.
LULA
Remanescente da era Vargas e primeiro ministro na frustrada incursão ao parlamentarismo no governo João Goulart, Tancredo foi o líder político certo para a troca de regime. Conservador, raposa, conciliador e versátil, tinha a capacidade de “andar com um pé em cada canoa e acender uma vela a Deus e outra ao Diabo”, conforme observou à época o então radical líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, que orientou a bancada do partido que havia fundado naqueles tempos a não participar da eleição indireta do Colégio Eleitoral.
“Mas eu pelo menos acendo uma a Deus!”, devolveu Tancredo, em entrevista durante a campanha. Rigoroso com os desvios éticos de seus integrantes naquela época, o PT expulsou três parlamentares (Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes) que votaram em Tancredo, mas conseguiu proibir que outros 26 comparecessem à sessão histórica. Vivia-se na era das ilusões ideológicas. Lula era a principal força de uma oposição que, 30 anos depois, em uma curiosa inversão, está nas mãos de um neto de Tancredo, o senador Aécio Neves.
O desfalque não alteraria o favoritismo de Tancredo. Fundador do PP, ele havia feito um pacto com o PMDB de Ulisses Guimarães e, de quebra, rachara a base do governo, atraindo dissidentes de peso como o então vice-presidente Aureliano Chaves, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. A fusão de esquerda com o centro e parte da direita para formação da Aliança Democrática já daria uma vitória folgada ao ex-governador mineiro.
Para complicar a vida do candidato dos militares e do PDS, malufistas foram flagrados distribuindo dinheiro a parlamentares para tentar virar o jogo. As imagens do índio xavante Mário Juruna abraçando uma montanha de dinheiro, no interior de uma agência bancária, ganhariam o país e colocaria uma pá de cal na candidatura presidencial de Paulo Maluf, em cujo perfil as suspeitas de corrupção colariam, desde então, como marca indissociável.
A história do país ganharia outro rumo, no entanto, se Paulo Maluf não tivesse mantido sua candidatura. Para sorte de Tancredo, e do Brasil, ele acreditou até o último momento que a força que ainda lhe restava no meio militar pudesse ajudar a reverter a tendência da derrota. Contados os votos, Tancredo já organizava a transição que, por ironia do destino, caiu no colo de Sarney. A imagem do mineiro que embalou multidões meses antes pregando país afora uma Nova República – uma campanha exótica para uma disputa que se daria numa única sala, em Brasília – e de seu calvário, da doença até a morte, em 21 de abril de 1985, seriam a plataforma política que garantiria a volta da democracia e o retorno dos militares aos quartéis.
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2015-01-15/ponto-final-da-ditadura-militar-no-brasil-eleicao-de-tancredo-completa-30-anos.html