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domingo, 7 de setembro de 2014

Seca deixa um terço da Bahia em emergência

Antes, era rio. Um braço do  São Francisco. Agora, uma leve batida de pé no chão faz a poeira fina levantar e embaçar a esperança de famílias inteiras que convivem ano a ano com a seca. O Velho Chico, como o rio é chamado, teve, segundo pescadores, a maior redução do nível da água.
Até a última sexta-feira, 144 municípios baianos - 30% do total do estado - estavam em situação de emergência, com decreto homologado e reconhecido. A estimativa é  que 1.530.205 pessoas foram afetadas por conta da estiagem este ano.
De 2011 a 2013, houve crescimento de 121% no número de municípios em situação de emergência por conta da seca (leia abaixo).
Para seu José Bento Barbosa, 55, que mora no povoado de Barreiro da Passagem, em Muquém do São Francisco, no oeste do estado, restou uma poça d'água, suja, no lugar onde o rio costumava correr.
É dela que ele consegue, com auxílio de uma bomba, retirar um pouco de água para irrigar a pequena plantação que mantém no fundo de casa. O que consegue colher serve para alimentar ele,  esposa e cinco filhos, e vender na feira de Ibotirama, cidade vizinha que é separada apenas pelo rio. "Começou a secar em junho. Sempre foi assim, mas nunca tinha secado todo (o braço de rio)", contou.
Quando o córrego não secava todo, seu José pegava uma canoa com a esposa Rosa Vieira, 51, e levar a colheita para vender na feira. "Agora, a gente tem que andar muito mais com as coisas na cabeça até chegar a uma parte do rio que não tenha secado ou esteja muito raso. Este ano é o pior que já vi", afirmou.
Nem mesmo da pesca seu José está conseguindo retirar o sustento da família. "Não tem mais lugar de pesca. Secou tudo. Onde era fundo agora está raso. Dá para atravessar a pé. Há um pouquinho de peixe", lamentou o pescador, que aprendeu o ofício com o pai dele.
"Naquele tempo era muito peixe. Era cada curimatã grande. Hoje, só tem pequeno", lembrou, sentado na frente de casa, ao lado da mulher. "Antes, o pessoal mais velho falava que era como Deus quer. Hoje, a gente sabe que é o trabalho dos homens. O governo podia fazer algo", comparou dona Rosa.
Como a água para irrigar a plantação é pouca, cada dia, contou ela, tem que escolher o que molhar para não deixar morrer. "Um dia é o alface. No outro, o coentro, e assim a gente vai  levando a vida".
Comida
Enquanto os filhos brincavam na terra seca,  Maria de Cássia Alves, 43, reforçou que "a seca está pior este ano". "A gente ainda conseguia plantar  batata, mandioca, milho... Dessa vez, a gente não conseguiu nada", disse, enquanto apontava para o local onde costumava plantar, mas que ficou seco.
"Meus filhos reclamam 'mainha está muito pouco (a comida)', mas a gente vai se ajeitando e passando". Maria de Cássia contou, ainda, que, às vezes, os filhos saem para brincar com um badogue e voltam com algo para comer: "Eles  trazem um pombo e pedem para fritar, mas eu sei que não deveria".
Prejuízos
O pescador aposentado Almir Batista, 68, mora em Ibotirama e faz o transporte de estudantes da localidade de Ilha do Saco para a cidade. Um percurso de 24 quilômetros que teve que ser alterado. "A lancha não está passando no lugar que eu pegava os alunos. Está muito raso. Tenho que ir mais uns dois quilômetros até achar um lugar onde dá para parar", relatou.
Também pescador, Nilson de Araújo, 50, disse que nem o dinheiro investido para pescar dá para cobrir. "Só tem peixe miúdo. Às vezes, a gente gasta 200 conto (reais) com gelo e gasolina e não faz  100. Muitos estão desistindo".
"Hoje, a gente olha para o rio e dá dó. Os barcos estão encostados, e os donos não têm nem dinheiro para ajeitá-los. Quem pode vai dando um jeitinho", reclamou o pescador Benedito Pereira, 58.
Bartolomeu Santos, 47, nascido e criado em Ibotirama, relembrou o tempo das cheias. "De 1996 para cá, não teve mais cheia boa. Esses dias não têm pescado. Ave Maria! Dá vontade de chorar. Quem já viu o rio na época boa e agora ver desse jeito", lamentou.

Região Oeste é a mais afetada do estado

À frente da Superintendência de Proteção e Defesa Civil (Sudec),  Salvador Brito destaca que atualmente a região oeste do estado é a mais crítica. “É a mais afetada pela estiagem, mas não são todos os municípios. São aqueles mais próximos do rio São Francisco”, disse.
O número de municípios em situação de emergência por conta da seca aumentou de 2011 a 2013. Em 2011, foram 123 cidades, contra 260 em 2012. No ano seguinte (2013), foram 273 do total de 417 municípios baianos. O crescimento foi da ordem de 121%. Este ano, já há 144.
Com o decreto de emergência, os municípios podem requerer ações do governo com dispensa emergencial de licitação. “No caso da seca, possibilita, por exemplo, a contratação de carros-pipa”.
Ele ressaltou que apenas 19 dos 144 municípios já conseguiram firmar convênio para carros-pipa. “Mas nem todos têm a mesma necessidade. Há outras demandas como ações para animais e poços artesianos que podem ser apresentadas para qualquer órgão público do Estado ou da União”.
O prazo de validade do decreto é de 180 dias. Caso a situação persista, o município pode decretar novamente e submeter à avaliação do Estado e da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil para homologação e reconhecimento, quantas vezes forem necessárias.
Fonte: http://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/seca-deixa-um-terco-da-bahia-em-emergencia-1620745